Segundo MEC, controle da abertura de cursos impede número maior de matrículas. Para especialistas, faltam investimentos no setor.
Os brasileiros que estudam pela internet para conquistar um diploma de ensino superior se multiplicaram nos últimos dez anos. Em 2001, apenas 5.359 estudantes estavam matriculados na modalidade de cursos a distância. Uma década depois, as matrículas nesse tipo de graduação aumentaram 170 vezes, chegando a 930.179 segundo o Censo da Educação Superior 2010, divulgado nesta segunda-feira pelo Ministério da Educação. Apesar do grande crescimento, o ministro da Educação, Fernando Haddad, diz que o número de vagas oferecidas na modalidade poderia ter sido ainda maior. O controle da abertura de novos cursos, segundo ele, impediu a ampliação das matrículas nesse tipo de graduação. Como acontece com os presenciais, as instituições precisam de pré-requisitos – como projeto pedagógico, número mínimo de professores e infraestrutura – para abrir um novo curso. O MEC verifica essas condições para autorizar a abertura de vagas.
“O ensino a distância no País só não cresce mais em função da regulação do MEC. Se liberássemos, esse número duplicaria ou triplicaria, mas não queremos crescimento sem critério e, sim, sustentável”, ressaltou o ministro. Diante do total de matrículas no ensino superior, a modalidade que não exige a presença do aluno em sala de aula todos os dias representa 14,6%. Um crescimento de cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior, quando 14,1% dos estudantes faziam cursos a distância no País.
Para quem se dedica a estudar a metodologia, faltam investimentos no setor para garantir qualidade de ensino nesse novo modelo. Consuelo Fernandez, da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), diz que muitas instituições abriram cursos nessa modalidade com a ideia de que a oferta seria mais barata. Um equívoco, segundo ela, que custa caro para os alunos, especialmente, que não recebem boa formação.
“Falta reconhecer que, para fazermos um bom ensino, precisamos de investimento. É um mito a ideia de que a educação a distância é mais barata do que a presencial. Se a instituição investe em softwares, simuladores, capacitação dos professores para que de fato a interatividade com os alunos aconteça, a oferta se torna cara. Precisamos investir mais”, destaca a professora.
A diretora acadêmica e reitora da Universidade Estácio em São Paulo, Susane Garrido, concorda com a representante da Abed. Para ela, ainda é preciso investir na interação e garantir inclusão digital e social. “Ainda estamos nos apropriando das tecnologias para garantir a inclusão digital. Não chegamos ainda na inclusão social, para fazer com que o sujeito que não teria acesso algum a tecnologia e ensino tenha essa oportunidade”, afirma. O crescimento da educação a distância
O número de estudantes matriculados nos cursos que não exigem presença nas salas de aulas todos os dias cresceu 170 vezes desde 2001.
Susane acredita que, se as instituições aproveitarem as possibilidades de interação oferecidas atualmente, os custos com tecnologia tendem a ficar mais baratos. “A gente pode compartilhar esforços”, diz. Ela ressalta, contudo, que as necessidades da modalidade ainda precisam ser melhor compreendidas. O ensino a distância exige projetos pedagógicos específicos e profissionais capacitados na área.
O futuro, para Consuelo, é ilimitado. Ela concorda que é possível crescer muito ainda no setor, especialmente por conta do desenvolvimento das novas tecnologias. “Vamos chegar a um momento em que não teremos mais educação presencial ou a distância, será tudo a mesma coisa”, garante. Na opinião dela, ainda há preconceito em relação à modalidade. “A legislação para a educação a distância ainda espelha a legislação presencial. Para mim, ainda faltam normas específicas também. Os preferidos de quem estuda pela internet
A maior parte dos cursos oferecidos a distância é de licenciatura (45,8%), seguidos dos bacharelados (28,8%) e dos cursos tecnológicos (25,3%). Para as especialistas, não há impedimentos em formar bons professores – estudantes de licenciaturas – ou bons tecnólogos nos cursos a distância. Susane e Consuelo defendem que os problemas de qualidade das instituições são os mesmos em qualquer tipo de graduação.
“Há uma tendência em colocar a educação a distância como responsável pela qualidade ou não de um curso por si só. Mas o que temos de considerar é que, se uma instituição de ensino não tem qualidade no ensino presencial, certamente não terá a distância. Não é porque um curso é presencial que é bom”, comenta Susane.
Consuelo ressalta que já existem programas que simulam práticas que ajudam a alavancar a qualidade da formação. E os estágios e atividades práticas não são excluídos de grande parte dos cursos.
À primeira vista pode parecer estranho, mas erros cometidos por funcionários pela falta de habilidade ou excesso de entusiasmo não devem ser reprimidos severamente pelos gestores. Segundo Alexandre Prates, especialista em liderança, desenvolvimento humano e performance organizacional do ICA (Instituto de Coaching Aplicado), o correto é apenas orientar para o equívoco não volte a acontecer. E o motivo é simples: tais erros permitem que os funcionários liberem a criatividade e desenvolvam projetos inovadores para a empresa. Além disso, a equipe pode aprender mais com os erros cometidos.
"Quando os funcionários não são desafiados a criar e não têm 'liberdade' de errar eles se acomodam. Com medo de possíveis consequências que um erro pode gerar, perdem a coragem e a vontade de inovar, de dar sugestões e até mesmo de se envolver mais com as atividades que exercem. Quem perde com isso é a empresa, que deixa de aproveitar o potencial de muitos talentos”, destaca Prates.
Convém, no entanto, alertar para um risco. Antes de estabelecer uma cultura de desafios e de maior liberdade para os funcionários, é importante adotar medidas que impeçam os departamentos de se transformarem em campo de testes de criação sem qualquer tipo de planejamento, pois isso pode levar a prejuízos.
Para evitar problemas como esse e, ao mesmo tempo, minimizar erros, a dica é estabelecer regras e limites, planejando as ações com detalhes. “Qualquer ideia, por exemplo, deve ter seus prós e contras avaliados pelo autor e por seu gestor antes de se tornar um projeto. Já quando se transformam em projetos precisam ter principalmente custos e riscos medidos antes de serem colocados em prática. O importante é que o planejamento garanta o máximo de certeza de que a inovação trará resultados positivos. E isso deve ser estimulado em todas as áreas”, recomenda Prates.
Se, nesse processo, um erro for cometido, o gestor precisa avaliar as razões e orientar corretamente a equipe. "A falta de alguma habilidade ou conhecimento é um problema que pode ser resolvido com treinamento. Já o erro por excesso de entusiasmo é facilmente corrigido com conselhos”, explica Jane Souza, consultora de RH do Grupo Soma – Desenvolvimento Corporativo. Segundo ela, incentivar o funcionário a admitir o erro e a ser proativo na busca de soluções é muito importante nessa hora. Erros por falta de comprometimento
Esse é um problema que precisa ser combatido. Para isso, deve-se identificar as causas, que normalmente são falta de motivação ou desgaste físico ou mental. Ambos estão ligados diretamente à empresa. A equipe pode estar desmotivada pela falta de benefícios, de melhores condições de trabalho e, até mesmo, de ferramentas básicas para exercer sua função adequadamente. Já o desgaste pode estar relacionado ao excesso de trabalho diário e a longos períodos sem folgas ou férias.
Para Jane, “esses são problemas que a empresa precisa e pode evitar com programas elaborados pelo RH com base nas necessidades dos funcionários e de seus departamentos". No entanto, se for constatado que a falta de compromisso tem a ver com dificuldades do funcionário de se encaixar ou aceitar a cultura da empresa, por mais que suas expectativas sejam atendidas, é recomendado avaliar se vale a pena ele continuar na equipe.
Medidas como essas são simples de adotar e podem ajudar sua empresa a aproveitar mais o potencial dos funcionários para inovar e, assim, obter maior eficiência. Pense nisso!
Estão abertas até o dia 26 próximo as inscrições para curso de mestrado profissional, gratuito, destinado à qualificação de professores de matemática. São oferecidas 1.525 vagas, em todo país, em 65 polos da Universidade Aberta do Brasil (UAB).
Financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação, o curso de pós-graduação destina-se a professores de matemática da educação básica, especialmente de escolas públicas. Ele será ministrado na modalidade semipresencial por uma rede de instituições de educação superior ligadas à UAB, sob a coordenação da Sociedade Brasileira de Matemática.
Para concorrer às vagas, os candidatos terão de passar pelo Exame Nacional de Acesso, que consiste em prova única, em 26 de novembro, com questões objetivas e discursivas e duração máxima de quatro horas. Cada polo do programa destinará 80% das vagas a professores da rede pública de educação básica.
Estão abertas até o dia 26 próximo as inscrições para curso de mestrado profissional, gratuito, destinado à qualificação de professores de matemática. São oferecidas 1.525 vagas, em todo país, em 65 polos da Universidade Aberta do Brasil (UAB).
Financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação, o curso de pós-graduação destina-se a professores de matemática da educação básica, especialmente de escolas públicas. Ele será ministrado na modalidade semipresencial por uma rede de instituições de educação superior ligadas à UAB, sob a coordenação da Sociedade Brasileira de Matemática.
Para concorrer às vagas, os candidatos terão de passar pelo Exame Nacional de Acesso, que consiste em prova única, em 26 de novembro, com questões objetivas e discursivas e duração máxima de quatro horas. Cada polo do programa destinará 80% das vagas a professores da rede pública de educação básica. Matrícula — Ao fazer a matrícula, como determina o editaldo Exame Nacional de Acesso, os candidatos aprovados devem apresentar contracheque ou declaração da Secretaria de Educação, estadual ou municipal, ou ato de nomeação publicado no Diário Oficial do estado ou município. Além disso, devem apresentar declaração do diretor da escola, com firma reconhecida, de que estão no exercício da docência de matemática no ensino básico.
Estimativa da ONU é a de que, se não forem contratados, países não atinjam meta de dar ensino básico a todas as crianças até 2015.
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que são necessários 6,1 milhões de professores em todo o mundo para que o acordo de universalização da educação básica até 2015 seja cumprido. A meta de garantir que todas as crianças do mundo concluam o ensino básico até essa data faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, compromisso assinado por 191 países em 2000.
O alerta foi feito nesta quarta-feira, em que se comemora o Dia Internacional do Professor. Segundo a organização, do total, 2 milhões de professores precisam ser formados e contratados. Os outros 4,1 milhões de profissionais são necessários para substituir professores aposentados, doentes ou que trocarão de carreira até lá.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) diz que metade dos docentes precisam atuar na África Subsaariana. Os Estados Árabes necessitam de 243 mil profissionais, outros 292 mil devem trabalhar no sul e oeste da Ásia e a Europa Ocidental e América do Norte, precisam de mais 155 mil professores.
A Europa Central e a Oriental, a Ásia Central e a Ocidental, a América Latina e o Caribe, juntos, somam 11% da escassez global. “Se quisermos dar oportunidades iguais para nossos filhos e filhas, devemos criar políticas que estimulem homens e mulheres à profissão de docente”, afirmou a Diretora-Geral da Unesco, Irina Bokova.
O tema do Dia Internacional do Professor em 2011 é “Professores para a Igualdade entre Gêneros”. A Unesco está promovendo fóruns e divulgação de estudos sobre o tema em homenagem à data.
As tecnologias de comunicação, mesmo as mais avançadas, não são capazes de construir por si próprias novas formas de saber e de inteligência. Isso porque, seu impacto sobre as existências individuais e coletivas depende diretamente da habilidade das pessoas que as utilizam. A afirmação é do filósofo francês Pierre Lévy, celebrado como um dos pensadores de ponta da cibercultura. Afinal, defende o criador do conceito de inteligência coletiva, ao longo da história, os seres humanos vêm se adaptando a padrões estabelecidos pelos mais diversos tipos de equipamentos, dos telefones convencionais aos tablets, fazendo os mais diversos usos deles. É a habilidade demonstrada pelas pessoas na interação com os equipamentos que torna mais ou menos ricas a produção e a transmissão de informação mediada pela tecnologia e, consequentemente, o processo de produção do conhecimento. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista coletiva concedida por Lévy recentemente em São Paulo e da qual a Pré-Univesp participou.
Pré-Univesp: Muitas pessoas afirmam a relação entre homem e computador ou celulares como sendo intuitiva, em especial os desenvolvedores que trabalham a usabilidade. O senhor considera que a tecnologia simplifica ou complica a vida das pessoas?
Pierre Lévy: A resposta simples: complica! (risos)
Pré-Univesp: Em que medida a aprendizagem de uma nova tecnologia é intuitiva ou depende de processos ou movimentos educacionais (não necessariamente formais) e culturais? Entender a relação tecnologia e homem como intuitiva não acaba sobrepondo diferenças culturais, étnicas, etárias ou socioeconômicas?
Pierre Lévy: É verdade que os grupos sociais que vivem em condições desfavoráveis têm mais dificuldade para utilizar as novas formas de comunicação. Há uma espécie de padronização dos protocolos de comunicação no mundo todo. Tomemos dois exemplos. O primeiro é o telefone. Usar alguns números para contatar uma pessoa é muito estranho, se pararmos pra pensar. Mas com a usabilidade, é possível selecionar o nome de quem se deseja contatar e a ligação é feita. Esquecemos os números, mas eles estão ali. Por causa da padronização podemos telefonar de qualquer ponto do mundo para qualquer parte do globo. Assim, a padronização é inevitável. O segundo exemplo é o carro. Os carros são todos iguais. Há pequenas diferenças, como a mão da direção na Inglaterra, que é do lado esquerdo ou mecanismos automáticos que existem em alguns carros e em outros não. Mas todo o resto é exatamente a mesma coisa no mundo inteiro. E essa padronização simplifica a vida das pessoas, sobretudo das que viajam. É evidente que se pode ter uma adaptação local, mas eu acho que no futuro a padronização industrial vai continuar, especialmente no campo das comunicações e telecomunicações. Essa é uma tendência irrefreável. E eu acho que isso é bom, pois não haveria internet se não tivéssemos o sistema de endereçamento padronizado. Não haveria world wide web sem sistemas universais de páginas, URLs, e assim por diante. Se quiser ainda outro exemplo, temos o formato digital para músicas mp3, que é o mesmo para diferentes tipos de música. No nível técnico, isso é completamente padronizado. Assim, a padronização da técnica é uma coisa e a padronização do conteúdo é outra completamente diferente. Existe a música africana, a música brasileira… Por isso, precisamos distinguir a padronização técnica da padronização cultural. Acredito que a padronização técnica é uma coisa boa para a mudança cultural; misturar diferentes tendências, diferentes correntes, diferentes culturas.
Pré-Univesp: Mas o fato de os produtos serem padronizados supõe que as pessoas terão a mesma facilidade para utilizá-los sejam elas de qualquer origem ou cultura?
Pierre Lévy: Esse é um aspecto material, de computadores, iphones… Mas eu diria que é difícil para todo mundo, muito mais para culturas orientais e países do hemisfério sul, especialmente, para a geração mais antiga, em qualquer lugar. É menos uma questão de país de origem do que de quantos anos tem o usuário dessas tecnologias. Eu tenho dificuldades. Não gosto de smartphones, são muito pequenos, a visualização é difícil… Não gosto.
Pré-Univesp: Nós temos hoje em dia os smartphones, os tablets e diversos outros equipamentos que contribuem para o desenvolvimento da inteligência coletiva. Qual é o real papel dessas ferramentas nessa nova forma de construção do saber? Como elas podem definir essa construção?
Pierre Lévy: Não é o gadget que eu uso que é definidor: é a habilidade em usá-lo. O que é importante é que nós estamos agora criando ambientes em rede onde a comunicação é ubíqua. Isso quer dizer que de qualquer lugar é possível se comunicar com alguém que está conectado à rede. Este é o primeiro aspecto. O segundo aspecto é que nós temos hoje uma capacidade quase infinita para guardar informação, e isso praticamente sem custos. E o terceiro aspecto é que nós temos um tremendo crescimento da potência computacional, que é a capacidade de o computador fazer operações automáticas através de números, através de símbolos, tornando mais eficaz o processo de comunicação. Então existem: a potência computacional, a comunicação ubíqua por internet e a capacidade quase infinita de guardar informações. Com esses três aspectos nós temos um novo ambiente de comunicação, e esta é a base técnica para o desenvolvimento de um novo tipo de inteligência coletiva. Se existem essas três ferramentas, automaticamente se desenvolve um ambiente forte de comunicação que permite desenvolver a inteligência coletiva. A exploração ou o uso dessa capacidade depende de cada um e não das ferramentas.
Pré-Univesp: Como os processos cognitivos impulsionados e modelados pelas atuais tecnologias de comunicação móveis, que estão avançando forte e rapidamente, diferem das tecnologias digitais de cinco, dez anos atrás? Pierre Lévy: Não há tantas diferenças assim. A comunicação móvel teve avanços e a noção de ubiquidade está em todo lugar e em todas as coisas. Essa é a principal diferença. Para todo o resto, não há grandes diferenças, a meu ver.
Pré-Univesp: Hoje nós temos uma infinidade de ambientes virtuais abertos que podem ser usados na educação, além de novas tecnologias que se apresentam a todo momento. Que tipo de impacto esses ambientes e essas tecnologias estão causando no ensino?
Pierre Lévy: A primeira dificuldade em responder esta questão existe porque nós temos a educação primária, a secundária, a educação superior e, além disso, a pós-graduação sendo que cada uma tem seu estilo de aprendizado. Eu penso que, na educação primária, o relacionamento das crianças com os números, com as palavras, pode ser francamente fortalecido quando elas têm a possibilidade de manipular esses elementos – eu digo as palavras e os números – em telas, seja em computadores ou em tablets. E melhor ainda se essa dinâmica for realmente interativa, online. Então, é possível fazer uso de todas essas tecnologias na educação primária. Mas eu tendo a pensar contra a ideia de um impacto da tecnologia na educação. Não há um impacto da tecnologia na educação. Há ferramentas que estão disponíveis e há educadores que podem usar essas ferramentas de um modo ou de outro. O modo como se usa essas ferramentas é que é importante e não as ferramentas em si. É possível criar várias estratégias de ensino fazendo uso dos mesmos instrumentos, mas não há um impacto que seja automático e universal. Cada um pode explorar essas ferramentas a partir de uma determinada estratégia pedagógica: e é essa forma de aplicação que realmente define a eficácia da utilização dos instrumentos.
Pré-Univesp: A educação faz a ponte entre o passado, o presente e o futuro, pois é a via de transmissão cultural, em sentido amplo. Com o avanço das tecnologias de comunicação, o senhor entende que a educação vem perdendo sua centralidade nesse processo?
Pierre Lévy: De forma nenhuma. Tudo o que uma geração aprende depende do que a geração anterior deixou. As novas tecnologias são ferramentas muito poderosas para a transmissão do conhecimento, sendo o transmissor e o receptor muito ativos nesse processo, sobretudo quando se considera o tamanho da memória contemporânea e também a capacidade de processar informações. Estou falando de poder computacional. O maior problema que enfrentamos agora é a capacidade de usar corretamente, ou de otimizar essas novas ferramentas. Ressalto aqui que a world wide web surgiu há apenas uma geração atrás. É muito pouco na escala da evolução cultural. Vai levar provavelmente… não sei… três, quatro, cinco gerações até que tenhamos desenvolvido uma cultura para usar essas ferramentas da melhor forma possível.
Pré-Univesp: Há um livro recém lançado no Brasil cujo nome é The shallows: what the internet is doing to our brains. Nesta obra, o autor Nicholas Carr se posiciona, em muitos momentos, contra o uso da internet. Um de seus argumentos é de que se trata de um tipo de ferramenta que funciona como uma extensão do nosso próprio cérebro, e que seu uso constante faz com que exista uma nova maneira de se informar e de pensar. O resultado disso é o condicionamento a determinada forma de lidar com o saber: uma maneira que não leva em conta a necessidade de concentração, reflexão e paciência necessárias à apreciação de um bom romance, por exemplo. Como o senhor avalia esse tipo de crítica?
Pierre Lévy: Eu concordo que essas ferramentas tenham se tornado extensões de nossos cérebros e que condicionem formas de pensar, como toda mídia dominante. É o caso da escrita também, que condicionou nosso cérebro. Agora, quanto ao problema da dificuldade de concentração, vejo novamente como um problema de educação, de disciplina cognitiva. Esquecemos que um dos principais objetivos da educação formal é fornecer aos jovens disciplina cognitiva, sem a qual não se consegue nada. Então, se usarmos essas novas ferramentas com uma forte disciplina cognitiva, focando em prioridades, nas coisas mais importantes, usando enciclopédias e dicionários, contatando pessoas que sabem mais que nós sobre determinado assunto, com capacidade de colaborar, criar algo coletivamente, é fantástico. É preciso também controlar sua própria mente. Se não fizermos isso, não será o computador que fará por nós. Ele é uma extensão do cérebro que depende de como o cérebro funciona, claro (risos). Essa disciplina nunca foi natural. Fazer uma criança ler um livro do começo ao fim sempre foi difícil. A tendência é querer sair, brincar, fazer outra coisa, ver televisão. Hoje, acho que há mais tentações para a distração. Assim, a educação para a disciplina cognitiva deveria ser reforçada. Não vejo outra solução que não adaptar a educação.
Pré-Univesp: Como podemos resolver a questão da propriedade intelectual no universo das mídias digitais?
Pierre Lévy: Esse é um problema muito interessante e muito complexo porque, por exemplo, as pessoas que escrevem romances fazem dessa atividade o seu meio de sobrevivência, e não há como querer que elas abram mão de seus direitos autorais. Mas, considerando outro aspecto da questão, é necessário encorajar as pessoas para a criação intelectual e seu compartilhamento gratuito. Existe ainda o argumento em relação a guias, manuais, ou livros que são utilizados na educação: é completamente contraprodutivo ter que pagar por eles – nós deveríamos poder reproduzi-los sem custos. Eu não sei a resposta correta (para esse problema), mas o que posso dizer, como membro da comunidade acadêmica, é que minha posição é a de que cada livro ou artigo acadêmico deveria ser publicado gratuitamente na internet. É completamente paradoxal que livros científicos sejam tão caros. Vocês podem perguntar: – Tudo bem, então por que você não publica seus livros de graça, na internet? Minha resposta é: – Se eu disponibilizo meus trabalhos em meus sites pessoais, isso não irá contribuir para a minha carreira acadêmica. Porque eu tenho que mostrar essa produção em jornais científicos e outros veículos como esses. De um lado, tenho que apresentar meus trabalhos através de publicações consideradas sérias, e por outro lado eu não quero receber os direitos por meus livros: eu quero apenas que as pessoas os leiam. Em meu caso, em particular, alguns dos livros que escrevi estão disponibilizados gratuitamente na internet. Isso pra mim não é um problema, mas é uma questão para os meus editores. É uma situação difícil. Penso que estamos em um momento de transição e que progressivamente iremos encontrar soluções de acordo com as diferentes situações, para as diferentes pessoas, nos diversos setores da sociedade, e o problema da propriedade intelectual será suprimido. De qualquer modo, acredito que o acesso ao conhecimento científico deva ser facilitado: essa é, de uma maneira geral, a minha posição.
Pré-Univesp: Esta é uma questão sobre a memória. A maioria das ferramentas que criamos para a internet considera a questão da memória. A internet, aliás, é um tipo de memória que está fora do nosso corpo. Existe alguma mudança ocorrendo para que a web não seja apenas uma ferramenta de acesso ao esquecido ou ainda desconhecido, mas também um instrumento de reflexão?
Pierre Lévy: Eu penso que a inteligência coletiva das diferentes comunidades que estão se comunicando através da internet não é reflexiva o bastante. É muito difícil imaginar ou ter conhecimento sobre o modo como nós conhecemos alguma coisa, o modo como construímos nosso conhecimento. Uma situação que eu posso usar como exemplo nesse caso é: quando se lê um artigo da Wikipedia, é verdade que é possível entrar na página de discussão sobre como foi construído aquele verbete. Isso não existe em outros ambientes, e mesmo no caso da Wikipedia é muito difícil porque é necessário acessar as páginas, clicar, procurar. Então, eu sonho com uma situação onde possamos ter uma espécie de espelho de criação da inteligência coletiva, que nos ajudará a sermos criativos e a colaborar da melhor maneira possível. Se nós tivermos o espelho e não apenas a nossa inteligência pessoal, nossa consciência receptiva, mas um tipo de consciência reflexiva a respeito de nossa inteligência coletiva, já teremos muito. Mas hoje esse não é o caso. Logo, para mim, uma das pesquisas mais importantes que devemos realizar segue por esta via.
* O filósofo Pierre Lévy falou sobre conhecimento e interação com as tecnologias de informação e comunicação, em entrevista coletiva no Auditório da Coordenadoria de Tecnologia da Informação da Universidade de São Paulo (USP). Esta entrevista foi publicada também na edição número 131 da revista ComCiência, de setembro de 2011. Videos: Pierre Lévy – As formas do Saber